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Eu estava revirando minhas fotos no Google Fotos e fiquei muito emocionada ao encontrar as fotos do dia em que conhecemos o Quilombo dos Marinhos e do Sapé em Brumadinho. Na ocasião, havíamos sido convidadas pela De Rolê por Brumadinho para conhecer a cidade e os arredores de uma forma muito mais íntima. E eu começo esse texto me desculpando por ter demorado tanto para escrever sobre essa experiência.

O motivo das minhas desculpas e demora se resume ao fato de na época, meu antigo computador ter queimado. Eu lembro que me sentia muito frustrada por ter perdido registros importantes desta incrível viagem. Mas eis que hoje abro o Google Fotos e em uma exploração sem sentido, eu encontro essas preciosidades. Não consegui recuperar todas as fotos e vídeos, mas as que encontrei foram o suficiente para provocar uma sensação que eu ainda não consigo descrever.

Vivência no Quilombo e a sensação de pertencimento

Antes de começar a falar sobre os quilombos, eu gostaria de escrever um pouco sobre o quanto esse momento foi mágico.

Chegamos no Quilombo Marinhos bem cedo, logo que descemos da van, fomos recebidos carinhosamente por Seu Cambão, pai de Rei (falarei sobre ele mais a frente), um dos moradores mais antigos da região. Apertos de mãos e abraços aquecidos e aquela sensação de: estou em casa, se instaurou em mim.

Depois disso, fomos conhecer a família Rei Batuque e foi neste instante que eu perdi a minha filha. A Clara ficou tão íntima da família, parecia que os conheci há muito tempo. Curiosa, querendo olhar e mexer em tudo. Querendo fazer parte daquilo. No começo eu não entendi e como toda mãe oprimida por uma sociedade patriarcal, eu fiquei com vergonha por ela estar incomodando. Mas ela se sentia tão em casa quanto eu.

Família Rei Batuque

É bem difícil descrever a família Rei Batuque porque ela foge da tradicionalidade, mesmo que seja composto por um pai (Seu Cambão), uma mãe (Dona Leide), um filho (Rei Batuque), uma filha, uma esposa (Jana Janeiro). A família Rei Batuque tem muito mais a ver com pertencimento do que com laços sanguíneos. E isso foi muito lindo de ver.

Enquanto caminhávamos pelas comunidades, as crianças locais reconheciam de longe o seu Rei. Conhecido também como Rei Batuque, Reinaldo Santana, é líder comunitário e articulador de um coração e sorriso imensos.

Quilombo Marinhos

No município de São José de Paraopeba, fica o Quilombo Marinhos, na zona rural de Brumadinho, MG.

Inicialmente, foi povoado por ex-escravos da Fazenda Silva, antiga Fazendo Boa Vista, uma das maiores da região, localizada a poucos quilômetros da comunidade. Junto com o povoado existem mais três comunidades próximas: Rodrigues, Sapé e Ribeirão. E o líder de Marinhos é o próprio Seu Cambão! – entendem a potência desse encontro?

Marinhos que em 2018 era habitado por 80 famílias, recebeu o reconhecimento oficial de comunidade quilombola em 2010, por meio de decreto publicado no Diário Oficial da União (DOU), em 4 de novembro. As comunidades Lagoa, Casinhas e Massangano, que ficam próximas à Marinhos estão ainda em processo de reconhecimento como quilombos.

A estrutura garantida pelo Governo ainda é insípida, eles possuem:

  • Posto de saúde
  • Escola até o Ensino Fundamental
  • Transporte público em apenas 3 horários

Por esses e outros motivos, que Rei entendeu a necessidade de se fortalecer enquanto comunidade e criou um ecossistema que fornecesse aos jovens e adolescentes acesso à educação criativa. Com isso, ele oferece oficinas de batuques para os jovens da região, a Batuquenatividade.

Muitos trabalhadores da comunidade vivem da terra, com o plantio e a venda. E muitos outros são paisagistas e jardineiros no Instituto Inhotim. Isso lhes dá acesso a um número sem fim de mudas e recursos para combater pragas. E contribui para que as ruas e fachadas da comunidade estejam repletas de flores

Almoço tradicional no Quilombo Marinhos

Além de toda essa recepção incrível, fomos agraciados com uma típica refeição que deu vontade de repetir umas 10 vezes.

No cardápio, tínhamos: Arroz, feijão, angu, salada de alface e tomate e frango com ora-pro-nobris (uma planta rústica rica em proteínas que se desenvolve em vários tipos de solo, tanto à sombra, quanto ao sol). Para beber: suco de couve e de acerola, vindos do quintal de Dona Leide.

Quilombo do Sapé

Depois de conhecer Marinhos, e desse almoço incrível caminhamos para o Quilombo do Sapé. Estrada de terra batida, atravessamos pela linha do trem – para minutos depois ver uma maria fumaça passando a  todo vapor. Muitas histórias contadas e cada pedacinho de chão mostrando o seu valor e a sua ancestralidade.

Logo em frente, pudemos avistar a Igreja em homenagem a São Vicente de Paula, que estava fechada na ocasião. Alguns passos depois, casinhas construídas de pau a pique e sapé – daí a origem do nome “Sapé” e pessoas tímidas e desconfiadas com o tanto de gente nova circulando por ali.

A história de Brumadinho, se mistura com a história e cultura afro brasileira. As comunidades de Marinhos, Ribeirão, Rodrigues e Sapé formam a região Quilombola, que teria surgido em meados do século XVIII, quando o fazendeiro e dono de escravos Jacinto Gomes do Carmo, doou uma pequena parte da propriedade ao escravo João Borges. As comunidades quilombolas da região, mantêm vivas até hoje as tradições da cultura afrodescendente

Festa da Colheita

E por falar nisso…

Há 37 anos, muitas das famílias da região tinham dificuldades para sobreviver, por isso Dona Leide e Seu Cambão, tiveram a brilhante ideia de reunir os moradores para plantar nas terras do fazendeiro. Com isso, os alimentos colhidos, uma vez ao ano, são divididos entre a comunidade e os fazendeiros, que cedem as terras para plantio. Os alimentos podem ser usados para consumo próprio ou comercialização.

E essa iniciativa ganhou o nome de “Quem planta e cria tem alegria”. Para agradecer e comemorar a fonte de sustento destas famílias, todo ano, no mês de julho, é comemorada a “Festa da Colheita”. A festa traz rodas de danças, música e boa comida, além de uma missa de agradecimento.

Ateliê Pele Preta

Nós também conhecemos o Ateliê Pele Preta, administrado por Jana Janeiro, que também atua como turismóloga e educadora em Belo Horizonte. Conheça:

O Ateliê Pele Preta é um coletivo criativo que visa a valorização e disseminação das artes Negra, regados de ideias, conceitos, personalidade e exclusividade. O Ateliê Pele Preta promove o afroempreendedorismo buscando a equidade no contexto econômico e social. Estimulando o empoderando a cultura negra com produtos que perpassam pela tradição à contemporaneidade.

Curta a página no facebook: Ateliê Pele Preta.

Viva essa experiência no Quilombo Marinhos e do Sapé

A agência De Rolê por Brumadinho que nos agraciou com esse passeio fantástico e inesquecível. Caso você queira mais informações ou queira conhecer as comunidades, pode entrar em contato através do Instagram, ou pelo Facebook da agência. Ou pelo telefone (31) 98646-9064. O passeio se inicia às 13 horas e custa R$ 80*. Com direito a translado e almoço.

Onde ficar em Brumadinho

Nesta viagem, ficamos hospedadas no Hostel 70, no Centro de Brumadinho. Ele foi o primeiro hostel da região. E foi muito legal, pois alguns amigos e seguidores já tinham ficado nesse hostel e durante a viagem recebi mensagens de pessoas que lembraram de sua estadia. Se você quiser reservar pelo Booking CLIQUE AQUI.

*valores referentes a fevereiro de 2017. Consultar com a agência. Sujeito a alterações.

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